Por que devemos ler Eric Hobsbawm – uma estratégia contra o empobrecimento cultural, social e político. Por Tristan Tell

O Brasil de Hoje: Fragmentação, Fanatismo e Crise Cultural

Vivemos um momento de extrema polarização, no qual o fundamentalismo religioso ocupa um papel central na política e na sociedade. A identidade brasileira, já fragmentada, sofre ainda mais com uma visão deturpada no exterior, onde o país é visto ora como uma promessa exótica, ora como um território de desordem e atraso. Paralelamente, cresce a incapacidade coletiva de formular frases completas, articular ideias e compreender a própria história. O cenário é alarmante: discursos vazios dominam o debate público, a cultura se empobrece, e a política se torna um campo de guerra entre narrativas superficiais e inflamadas. Mas como chegamos aqui?

O Retrocesso Pós-Globalização e o Fundamentalismo Religioso

Com a globalização, o Brasil se inseriu de forma dependente no sistema internacional, sem consolidar uma identidade própria no contexto global. A desindustrialização e a financeirização da economia intensificaram desigualdades, enquanto a cultura nacional foi progressivamente reduzida a um produto comercializado de forma caricata. Nesse vácuo de identidade, movimentos religiosos ultraconservadores ganharam espaço como supostas âncoras morais, se aliando a forças políticas de extrema direita e influenciando decisões que deveriam ser pautadas pelo interesse público, e não pela fé.

Hobsbawm já alertava sobre essa dinâmica: quando grandes projetos coletivos como o socialismo ou o nacionalismo progressista entram em crise, a sociedade tende a buscar refúgio em identidades fechadas, como o fundamentalismo religioso e o ultranacionalismo. Assim, a fé, que poderia ser um elemento de coesão social, se torna um instrumento de polarização e exclusão.

A Segunda Guerra Mundial e as Transformações Perigosas

O século XX trouxe mudanças sociais e políticas de impacto profundo. A Segunda Guerra Mundial revelou a capacidade destrutiva do fascismo e impulsionou novos modelos de governança global. No entanto, também abriu espaço para uma transformação perigosa: a ascensão dos Estados Unidos como potência hegemônica e a consolidação do neoliberalismo como doutrina dominante a partir dos anos 1970. No Brasil, isso significou décadas de desmonte do Estado, precarização das políticas públicas e uma elite política que, ao invés de atuar com projetos civilizatórios, optou por práticas predatórias e de curto prazo.

Hobsbawm compreendia que a Segunda Guerra não apenas derrotou o nazifascismo, mas também reorganizou o mundo em novas bases econômicas e políticas, muitas delas marcadas por desigualdade e exploração. A falta de um projeto de civilização – substituído pela busca incessante de lucro e poder – explica por que, até hoje, o Brasil enfrenta crises estruturais sem respostas eficazes.

O Papel da História e a Urgência de Ler Hobsbawm

O que vemos hoje é o resultado de um processo longo, mas que poderia ter sido compreendido e combatido com mais inteligência se a sociedade brasileira fosse mais atenta à sua própria história. Eric Hobsbawm nos ensina que o passado não é um conjunto de eventos isolados, mas um fluxo contínuo de transformações que moldam nosso presente e futuro. Ler sua obra não é apenas um exercício acadêmico, mas uma estratégia fundamental para escapar do empobrecimento cultural, social e político que ameaça o Brasil. Afinal, só compreendendo como chegamos até aqui poderemos encontrar caminhos para um futuro menos caótico e mais justo.

Tristan Tell

Bacharel em Comunicação, habilitado em Cinema pela FAAP(1986-90). Jornalista c/ 31 anos de experiência em veículos de comunicação como TV Record, TV Bandeirantes e diversos jornais.

Músico ( EP – Espinha Dorsal) e Poeta é Autor de 06 livros

www.tristantell.com.br

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